17 de julho de 2011

A Culpa e o Pulverizador

-“Véi...”

Disse o André. As introduções dele sempre contam com o pronome de tratamento acima (para maiores informações sobre as introduções do André, favor consultar a Ludy).

-“Eu trampava numa firma de publicidade lá em (não lembro). Mas não agüentei. Tive que sair.”

-“Ué, por que?”

Perguntou o Sandro, um véi amigo do André.

-“Porque, véi... É muito foda trampar em empresa. Tipo, tem sempre várias picas vindo na sua direção, o dia todo. E você tem que tirar a sua bunda da reta e por a de outra pessoa no lugar, por mais escroto que seja. Porque é isso o que todos os outros caras que trabalham com você vão fazer, tá ligado? É um ciclo! Não dá pra evitar.”

Concluiu/desabafou o homem.

Fiz que sim com a cabeça e confirmei que a ilustração escatológica do amigo não poderia ser mais elucidativa. Ambientes de trabalho têm muito a ver com violação anal, já que salvaguardar o próprio rabo é um rito diário de sobrevivência empresarial. O problema reside em empurrar o pepino pra outra pessoa.

Firmas, escritórios, companhias e afins são muito similares a escolas e presídios, no sentido de suscitar à competição, climatizando o ambiente com aquela agressividade velada que só os barris de pólvora têm. Afinal, em todo lugar onde há gente coexistindo contra a própria vontade, rola muita “fiadaputage” mesmo, como já dizia um filosófico colega. E o atalho encontrado por muitos profissionais pra subir na hierarquia corporativa 

Como afirmou Darwin e desmentiu a Inquisição, tudo tem uma origem. Com a distribuição da culpa não poderia ser diferente.  Afinal, quando você é criança, um singelo

-“Pai, não fui eu quem quebrou o para-brisa do seu carro com uma lajota não, tá? Quando eu vi, já estava assim!”

Já serve pra livrar sua cara. Na vida adulta, entretanto, a argumentação necessita ser mais detalhada, pra angariar um mínimo de credibilidade. E é aí que entra delegar a culpa ao próximo. Realize:

-“Olha, Dr. Egberto, eu realmente não sei de coisa alguma a respeito do desvio de 50 mil das contas da empreiteira. Mas tenho certeza de que o Erlani, que é o responsável pelo setor de finanças, pode explicar melhor para o senhor...”

Tá vendo como soa muito mais crível? E tudo por conta de um pequeno adendo à desculpa original: o culpado. Um

- “Não fui eu...”

é amador. Agora um

-“Não fui eu, foi ele!”

é profissionalismo in natura.

Não há pica que seja indivisível, vamos ser francos. Distribuir fragmentos de piroca profissional bundas subordinadas afora – adentro, aliás – é natural. Seja por necessidade, ciúmes, vaidade, engano ou esporte. Ou por puro sadismo mesmo. Tem muito chefe que curte assistir empregado levando no rabo. Tipo um vouyerismo corporativo, pro cara lembrar enquanto estiver tomando banho à noite. Doentio e injusto.

Eu penso no que disse o Bem Stone, certa vez, quando...

(pausa impactante)

O que, ‘cê não sabe quem é o Bem Stone? O Bem Stone era um promotor público de Nova York, interpretado pelo Michael Moriarty, nos áureos e viscerais primórdios do Law and Order, antes das vítimas especiais e de todos aqueles criminosos com transtorno obsessivo compulsivo, semana após semana. Num dos últimos episódios da 4ª temporada (se não me engano), ele conversa com a advogada “rival” num caso em questão. E diz algo como

-“Eu queria que uma vez, só uma vez, alguém dissesse no tribunal “Sim, fui eu. Eu cometi esse crime...”.”

Pois é. O Sandro também queria que, uma vezinha só, nego assumisse as cacas que faz. Quem sabe, caso esse dia venha a acontecer, eu mesmo também não assuma as minhas... 

8 de julho de 2011

O Lápis Soviético

Aí eu discordei do Amílcar.

Mas vamos com calma: uma coisa de cada vez.

O Amílcar é o gerente do hotel onde eu trampo. E também é o cara que o Sandro pretende ser, no futuro (só preciso virar gente grande e me bronzear um pouco).

Amílcar é um sujeito tradicional, um notótio adepto das convenções que acompanham o viver há décadas. Já o Sandro - saudosismos e caipirice à parte - gosta de inovar, e procura sempre repaginar e otimizar velhos conceitos para novos tempos.

Observação óbvia típica dos filmes da sessão da tarde: eu tenho muito a aprender com ele, que também pode se reciclar às custas da minha influência. Basta que ambos aprendam amistosamente a conciliar suas diferenças em prol de um objetivo comum, lançando mão da oposição complementar existente entre ambos e blá, blá, blá. Acho até que já chamei o Amílcar de Myiaghi, outro dia, sem querer...

Bom, rola que, na prática, sai umas faíscas de vez em quando. Ele me acha moderninho demais e eu acho ele antiquado em excesso. Pronto, falei.

Sei que essa aparente relutância em modernizar métodos tem a ver com a posição dele. Como gerente, o homem está sempre com a bunda virada para frente, a espera das picas que o ofício lhe inflige. Dessa forma, seu rosto está sempre voltado para trás, o que o impede de olhar para frente, além. E isso eventualmente o ancora ao passado.

Todo mundo apresentado? Beleza. Voltemos ao início do texto, então.

O motivo da discrepância de opiniões entre eu e o Amílcar foi da mesma natureza de nosso conflito essencial: muderno x véio. No hotel, há duas formas de visualizar as reservas anuais. A primeira e mais antiga é um bloco de papel espiralado com planilhas impressas, onde os dados básicos dos hóspedes são constantemente anotados a cada pré-reserva e apagados a cada desistência.

E há também uma versão digital disso, resumida numa única planilha gigante do Excel, com espaço ilimitado em cada uma das células para descrever toda a informação necessária dos hóspedes. Ela também já existia, mas o Sandro "deu um tapa na fachada" da dita cuja.

O Amílcar sugeriu (ordenou?) que eliminássemos a digital e mantivéssemos apenas a "escreve-apaga-escreve-apaga" em uso, já que ela havia sido recentemente reimpressa. Eu rodei a baiana. Especialmente depois de perceber que esse novo bloco tinha duas suítes 22 em cada uma das suas milhares de páginas, o que é perfeito pra dar merda/overbooking (rolou um erro de impressão, ainda por cima).

Ele então, com aquele ar plácido costumeiro, embasou seu ponto de vista numa máxima da sabedoria internética:

-"Os americanos gastaram milhões de dólares desenvolvendo uma caneta capaz de escrever em gravidade zero, quando enviaram seu primeiro foguete para o espaço. Os russos usaram um lápis."

Eu não disse nada, porque na hierarquia da empresa, o pau dele é consideravelmente maior doi que o meu (e etnicamente também, eu suponho). Mas pensei comigo:

-"A analogia é perfeita. O referencial é que não."

Porque jogar dinheiro pela privada pra desenvolver uma caneta espacial ninja é certamente desnecessário. Uma caneta é um acessório pra lá de supérfluo em relação a outros itens numa viagem interplanetária. Os russos usaram o cérebrobrilhantemente ao substituir a esferográfica pelo bom e velho grafite.

Mas o que o Amílcar propunha era economizar/retroceder num setor crucial ao funcionamento de um hotel. Porra, é como querer mudar a frase para:

-"Os americanos gastaram bilhões de dólares desenvolvendo um foguete de última geração para explorar o espaço. Os russos usaram um fusca."

Não dá. É totalmente incompatível abolir a tecnologia quando ela é evidentemente mais útil do que o método utilizado. Pergunta genial: por que não implantar um sistema híbrido, reunindo ambos? A solidez do passado com a felxibilidade do futuro. O melhor de dois mundos. Use o lápis no espaço sim, mas vá até lá de foguete, faz favor.

Pequenas doses de improviso e criatividade costumam ser ideais para sanar problemas que a tecnologia só tornaria mais complexos. Nem sempre a solução com leds e touch screens é a mais eficaz.

Mas, quando você se pegar tentando fazer um DDD usando duas latas unidas por um barbante, tá na hora de modernizar seus conceitos...

30 de junho de 2011

A Câmara e a Criança


Estávamos na Praça de Alimentação do Shopping eu, meu pai e a Úa. Ou melhor, a Ana Lua, menina que nasceu outro dia há 7 anos atrás e já está querendo dizer como as pessoas devem chamá-la (é oficial: o Sandro está velho).

Bom, rola que a baixinha queria porque queria ir ao cinema assistir Carros 2 em 3D. E perguntou se o vovô Henrique - o patrocinador oficial do evento, devo dizer - não queria ir conosco. Ele explicou que até gostaria de ir, mas que tinha um compromisso inadiável na Câmara. Ele trabalha na Prefeitura, e está sempre envolvido em algum nível com a política local, nas horas vagas.

Mas o que era pra ser uma breve satisfação ao pedido da baixinha acabou aguçando a curiosidade dela. Que quis logo saber:

-"Câmara? Vovô, o que é Câmara?"

E o vovô Henrique iniciou uma explicação que não poderia ficar de fora do BMLT.

-"É um lugar onde trabalham os vereadores de Resende, sabe? Gente muuuito atarefada. E eu tenho que ir cedo, sabe por que?"

-"Por que?"

-"Porque senão eles vão embora. Deu 21:00h, eles vão todos pra casa, ver novela. São todos homens, não tem nenhuma mulher lá. Mas a hora da novela, às terças e quintas, é sagrada, sabe?"

-"Ah, é?"

-"É. Tanto que, às 20:30h, não tem viv'alma por lá. Pra ninguém perder o comecinho da novela. Você gosta de novela?"

(sincera) -"Não."

-"Pois é. Eu também não. Mas tenho que ir cedo porque lá todo mundo gosta muito de novela."

-"E por que você não vai outro dia, então?"

-"Porque essa é a última sessão da câmara antes das férias. Depois, eles só voltam em Agosto. E voltam com uma vontade de trabalhar..."

-"E o que que eles fazem lá?"

(sorriso maliciosamente franco) -"Nada."

-"Nada? Nadinha?"

-"Bom, tem uns 2 ou 3 que realmente fazem alguma coisa, e se preocupam com o município..."

(pausa para um gole de milk shake)

-"E os outros não?"

-"Não. Os outros só ficam lá, conversando e conversando e conversando, pra resolver os problemas de Resende."

(interesse repentino) -"E eles já conseguiram resolver algum?"

(sorriso maliciosamente franco [2]) -"Não. Nenhum."

-"Ah."

-"Mas estão tentando. E ganham uma fortuna pra isso..."

(súbita perda de interesse) -"Aaahhnnn... Vô, compra pipoca?"

-"Não. Já esfaqueamos o seu avô o suficiente por hoje."

Essa foi toda a participação do Sandro na conversa. Eu estava ocupado tentando memorizar os diálogos dos dois, pra escrever esse texto. Acreditem, ao vivo foi bem mais instrutivo.

O Diogo Mainardi escreveu recentemente "O Brasil Para Coelhinhos", texto em que narra sua experiência de falar da Pátria Amada para os coleguinhas de seu filho (os coelhinhos em questão) numa escola de Veneza, onde atualmente reside. Vou sugerir ao pai do Sandro que escreva uma cartilha nos moldes. Podia se chamar "A Política Para Menininhas".

28 de junho de 2011

Crime e Castigo


O crime não compensa.

Não sei se você lembra/sabia, leitor, mas minha mãe deu o maior tombo no Sandro, em meados de 2008 (volte ao passado, Martin). Por conta disso, meu CPF é o feliz proprietário de R$ 50 mil em dívidas vinculadas à loja que eu e ela tocávamos, ou em decorrência do não pagamento do meu salário naquele período. E você ainda reclama da SUA mãe, aquela santa...

O que rola é que recentemente eu aprendi a ancestral arte marcial da barganha junto a operadoras de cartão de crédito. Quem me ensinou a técnica foi a D. Márcia, minha sogra, cuja perícia em negociar com criminosos faz o BOPE parecer um bando de fanfarrões. Resultado: graças a os ensinamentos da mãe da Shi, uma das "minhas" dívidas, que beirava os R$ 15 mil, foi negociada por R$ 2.000,00 redondinhos, só p'cê ter uma idéia.

Aí o Sandro recebeu o boleto do acordo, imprimiu, garimpou dinheiro com Deus e o mundo, foi ao banco, quitou as dívidas, ficou livre da inadimplência e suas restrições para todo o sempre e, de nome limpo, fez um empréstimo a juros baixos num banco estatal para pagar quem me emprestou a verba, né? Né não.

Ao invés disso, o sistema - sempre ele - engastalhou. Assim, mesmo tendo pago TODAS as dívidas (a maioria vinculada ao tal banco), ainda consta nos arquivos que eu devo 20 milhas.

Quer dizer, fiquei sem o dinheiro que levantei para pagar as contas, meu nome permanece imundo e as pessoas que me disponibilizaram a bufunfa estão negativadas também, já que eu não tenho crédito pra conseguir um empréstimo e devolver o numerário. Nunca "tomar no cu" ilustrou tão bem uma situação.

Mas sabe por que tudo isso aconteceu? Castigo. A justiçadivina se manifestando por intermédio da espada da verdade - cravada no meu rabo. Afinal, eu fiquei devendo um valor ao banco e paguei outro bem menor (vamos fingir que os jurosexorbitantes embutidos na dívida antes da negociação nunca existiram, ok?).

O que acontece é que eu só pude fazer esse tipo de acordo - em que o banco leva "prejuízo" - graças às boas almas que mantêm suas faturas pagas em dia e sorriem face aos encargos indecifráveis nelas discriminados. Pelo simples fato de estar em dia com seus débitos, esse povo iluminado dá margem ao banco para dar um descontinho pros inadimplentes tipo o Sandro. Afinal, é melhor pra instituição receber 30% de algo do que 100% de nada.

O bom pagador leva o trambiqueiro nas costas (e leva também uma outra coisa na região lombar). Mas o universo faz das suas para tentar compensar isso. Vide eu.

Ladrão que rouba ladrão, tem 100 ânus de restrição no cartão.

25 de junho de 2011

Paz, Serenidade e... Tédio?


-“Nossa, que lindo... Será que esses lugares existem de verdade?”

Suspirou a Eva, com uma das mãos apoiando o queixo, enquanto olhava placidamente para o monitor.
Além de ser xará da primeira mulher, a Eva é sub-gerente do hotel onde o Sandro trabalha. Ela teceu o comentário que inicia esse texto enquanto assistia à exibição do protetor de tela do PC da recepção (era um dia muito atribulado, aquele).

Porque o hotel goza de um daqueles programas de proteção de tela bonitinhos, com gravuras ricamente coloridas de locais que poderiam ser sets de filmagem de Contos de Fadas. Como a imagem que adorna esse texto, justamente a que a Pequena Eva admirava (clique para ampliar).

Refleti profundamente sobre o assunto enquanto a auxiliava em sua observação – se ela estava à toa, imagina eu. E cheguei à conclusão de que não gosto de fofura. Dê uma boa olhada na imagem e acompanhe meu raciocínio.

Primeiramente, a simpática cabana se localiza numa região montanhosa, provavelmente lá pros lados do Canadá, eu suponho. E isso já começa não me apetecendo. Vai que dá o azar de todo mundo lá nas redondezas falar que nem a Avril Lavigne... Já começou por aí.

Depois, tem o rio. A água, que é fonte de vida, também é fonte de infiltração, umidade e mofo. O que me faz crer que a casa foi construída com três tipos de madeira: a podre, a empenada e a empenada que começa a dar sinais de apodrecimento.

Fora que essa água não leva o menor jeito de ser potável. Não sei se você reparou o cilindro de urânio boiando ao lado do barco. Eu também não percebi, num primeiro momento. Mas aquele esquilo gigante com hidrocefalia mexendo numa flor superdesenvolvida na margem do rio me alertou. Aquilo só pode ser fruto de mutação radioativa.

Depois, porra, o tio que mora lá tem um barco. SÓ um barco. O lugar deve ser lá no cú do mundo. Nem luz elétrica deve rolar. Se vivesse lá, o Sandro teria de atualizar o BMLT pelo Correio! A menos que a Microsoft lance o Windows Candle, compatível com aparelhos não-elétricos, porque o top da tecnologia por lá deve ser um lampião a querosene. Eu sou caipira e vivo alheio à sociedade, mas pr tudo há um limite.

Telefonia fixa e móvel? Não me pertenceriam mais! Eu ia precisar adestrar um daqueles veados para entregar recados pros povoados vizinhos. Isso se não precisasse comê-los antes (estomacalmente falando, é importante frisar). Rango ia ser um problema, também. Apesar de que os animais da foto parecem coexistir muito bem, e não demonstram o menor receio em se aproximar da residência em questão. O dono deve se chamar Noé.

Tem mais: onde as meninas iam estudar? O melhor, O QUE elas iam estudar? Português e Matemática? Acho que tá mais pra “Caça e Pesca” e “Como Usar Uma Bússola”, pra ajudá-las a chegar em casa vivas.

As pessoas fantasiam que o paraíso é um local físico, alheio à realidade porém escondido em algum lugar remoto dela, repleto de clichês. Pra mim, paraíso é um conceito, uma idéia. E idéias não têm endereço. Elas residem na cabeça de quem as tem. Logo, o seu paraíso pessoal é acessível a qualquer momento. Por que você não o visita? E por que não o importa pro seu cotidiano? É mais fácil aplicar os conceitos que lhe agradam do que ir morar lá na casa do caralho.

É. O Sandro não é uma pessoa bucólica. Definitivamente.

19 de junho de 2011

Tags Conjugais

A Shi É minha chegada.

Não, eu não pretendo com tal afirmação reforçar a idéia de que a amizade é um dos pilares da nossa relação – porque há aquelas que não dispõem disso. Quero dizer é que eu e ela temos um grave problema quanto ao substantivo que um usa para se referir ao outro.

Nós somos noivos. O problema começa por aí. Noivado é um período transitório. Um espaço de tempo entre formas de relacionamento humano. A transmutação do namoro e a prévia do casamento numa só definição. Ou seja: não dá para ser noivo pra sempre, da mesma forma que não se pode ser eternamente adolescente (embora muita gente tente). A transição é inerente às duas idéias.

Então, se eu digo pras pessoas na rua que somos noivos, a maioria me olha com aquela cara de

-“Ah, sei. ‘Cê tá é enrolando a menina pra não ter que casar.”

Mal sabem eles que a mulherzinha da relação sou eu. Tolos.

Já o caso da Shi é igual mas é diferente. Quando ela menciona nosso noivado, a reação coletiva é um olhar morno e condescendente, que inspira frases como

-“Ai, tadinha... Ele tá te cozinhando em fogo baixo, né? Que cachorro! Homem não vale nada mesmo...”

Viu que ruim? E piora! Se você for um pouco mais velho/brega, sabe que “noivos” era uma designação muito usada por amantes, para justificar um cara e uma mulher andando juntos sem maiores vínculos aparentes. Rola até uma música que a mamãe ouvia com esse tema. É do Armando Manzanero (um baixinho espanhol que parece o Shrek com o sotaque do Gato de Botas), e na letra ele dá a entender que “novios” é um compromisso descompromissado. Perca algum tempo nesse link e conclua por si mesmo.

Percebeu como vai de muito ruim a péssimo num peido?

Solução? Subir de nível.A Shi vira minha mulher e eu, marido dela, para quem interessar possa. Pra mim, não faz mal algum, já que “mulher” é um termo genérico, que se aplica a namorada, noiva, esposa, etc.

Pra Shi, a situação complica. Porque, se ela fala pra outra mulher que tem marido, a referida já tasca logo o zóião na mão esquerda da minha Insetinha, pra conferir a aliança. E nós usamos na mão direita, noivos que somos. Aí, quase dá pra ouvir os pensamentos da mulherada:

-“Nossa, essa aí tá desesperada pra casar mesmo. Já tá até chamando o candango de marido...”

Phoda.

E o que dificulta ainda mais a nossa vida é a impossibilidade de utilizar outros vocativos. Porque não, você não diz

-“Oi, eu gostaria de comprar um presente pro meu bróder e...”

Ou

-“Boa tarde, eu vim marcar uma consulta pra minha parceira...”

É impraticavelmente inaplicável. Ficamos restritos a um ou outro termos mesmo. Diversificar fica com cara de relacionamento virtual via Orkut – “namo” é um bom exemplo. E isso é rebaixar o estado civil.

O último que sobra é “companheiro(a)”, que até se aplicaria bem ao nosso caso. Mas, não sei porque, o termo me lembra pobreza, desgraça e jornalismo (além de PT). Parece coisa daquelas notícias sanguinolentas da Record, tipo

“Zé Chuleta, catador de latinha de 55 anos, foi acusado de matar sua COMPANHEIRA Maria dos Prazeres com 12 machadadas, na madrugada de Quinta para Sexta. A Polícia ainda investiga a hipótese de suicídio.”

É. Acho que eu e a Shi somos apenas bons amigos...

15 de junho de 2011

Sandro, ME SALVA!


Não sei se eu já te contei, mas o Sandro cursou Psicologia.

Pois é. Todos temos um passado. Fiz 3/4 de período em 2003. 

Aí larguei os estudos porque estava ficando difícil conciliar meus demais compromissos e a faculdade. É que o fliperama só abria de tardinha e as baladas entravam pela madrugada, de modo que eu dormia até a tarde do dia seguinte - justamente a hora em que o fliper começava a funcionar de novo. Viu que ciclo perfeito? Não dava pra encaixar as aulas no meio disso. 

Mas eu dei meus pulos e voltei pra Psicologia em 2004, empenhado em acabar aquele curso rapidamente. E consegui: dessa vez, cursei só meio período e meti o pé outra vez (praticamente um doutorado em Introdução à Psicologia).

Bom, o fato é que, do alto de praticamente um período e meio de (semi) conhecimento da psique humana, cá estou eu, fazendo um inestimável favor a meus semelhantes. Vai ao ar hoje a novíssima seção do Blog Mais Legal de Todos, intitulada providencialmente de "Sandro, ME SALVA!"

O lance é assim: você escreve pro sandrohfr@yahoo.com.br e me conta o que lhe aflige. Aí eu rio bastante, respondo o e-mail te ridicularizando (ou nem dou satisfação) e escrevo uma postagem a respeito, propondo uma solução pro seu problema, sem te pagar um tostão pelo IBOPE que 'cê vai me ajudar a angariar pro BMLT. Bacana, né?

Agora, toda vez que você tiver dúvidas sobre como satisfazer sua namorada, fale com o Sandro.

Quando não souber como proceder diante de um desafio intransponível que a vida lhe impuser, fale com o Sandro.

Caso seus superiores lhe faltem com consideração no ambiente de trabalho, fale com o Sandro.

E se por ventura você quiser apenas conversar, buscando estabelecer uma amizade sincera, verdadeira e desinteressada, fale com outra pessoa, na boa. Isso é chato pacaralho.

Pronto. Fiz minha parte na boa ação do dia. Faça a sua, agora. Escreva pro Sandro!

P.S.: Não, a seção "Sandro, ME SALVA!" não dá dinheiro a quem estiver precisando (mas emprestar com juros de 10% ao mês é um caso a pensar)

14 de junho de 2011

"Finish Her!"


O Sandro trabalha junto com muitas mulheres no hotel. E tem medo diso.

-“Aquela dentuça filhadaputa do caralho..!”

Foi assim que a Joelma adentrou a recepção do hotel, numa jovial tarde de outono.

(oi?) –“Bom dia p’cê também, Joelma.”

(cega - e surda - de ódio) –“Sabe o que aquela piranha disse? Sabe?”

Ela bem que poderia ser mais específica sobre sua interlocutora.

(bocejo) –“Sei não.”

-“Aquela quenga desgraçada tá lá toda putinha porque tinha uma blusa dela caída no chão do vestiário.”

-“E...?”

-“E ela tá dizendo pra TODO MUNDO que fui EU quem tacou a porra da blusa no chão, de propósito! Porra, eu nem tava aqui! ACABEI de chegar!”

(cara de Monalisa) –“Entendo.”

-“Ai que raiva que eu tenho de mentira, tománucú!”

-“É.”

(CSI Penedo) –“Como é que ela já vai me acusando de jogar a blusa no chão assim, sem provas?”

-“É, né?”

-“AINDA MAIS ELA, que não vale nada, aquela piranha!”

-“É, é?”

-“Ah, mas eu não deixei quieto não! Sabe que que eu fiz? SABE QUE QUE EU FIZ???”

-“Que que ‘cê fez?”

(olhos em chamas) –“EU TAQUEI A BLUSA DELA NO CHÃÃÃO!!!”

Dizem os cientitas políticos mais feministas que um dos principais motivos da eterna beligerância do mundo é a enorme incidência de homens em posições de poder. Ou seja, um planeta “masculino” é mais propenso à agressividade.

Eu concordo. Acho que se as mulheres tomassem o volante, não haveria nada disso. Nem guerras, nem agressividade, nem intolerância... Nem mundo.

A mulher não é o sexo frágil. Fato.

10 de junho de 2011

Depreciação Sentimental


Lembra que eu disse uma vez que as mãe se divertem cultuando os filhos enquanto eles são pequenos e os difamando quando crescem? Claro que lembra. Foi nesse dia aqui, ó.

Então, eu estava enganado. Não é uma característica unicamente materna. É um traço da personalidade feminina.

A Shi e a Ludy são super miguxas, agora. Eu saio do hotel às 15h, e quando chego na Fábrica, uma meia hora depois, as duas estão praticamente trocando papel de carta uma com a outra, paralelamente a seus afazeres. Então, imagino que se eu brigar com a Shi, vão ser DUAS de cara amarrada comigo, daqui pra frente. Medo.

Aí faltou luz, ontem. Porque Penedo fica no meio do mato. Então, quando chove e venta muito, a energia, a telefonia, a internet e a presença do Espírito Santo acabam. O que nos manteve ilhados na Fábrica por 3 horas, olhando um pra cara do outro, sem poder produzir, rotular, responder e-mails, etc.

Nesse momento de comunhão, o sono me tomou. E informei as meninas que ia cochilar sobre algumas tiras de papelão – que outrora foram caixas – estendidas no chão (a crise tá foda).

Nisso, a Shi puxou o assunto, na forma de recomendação:

-“Só não vai roncar aí, hein, amor?”

E enganchou um

-“Sabia, Ludy, que o Sandro ronca? Eu acordo de madrugada às vezes e tá a pessoa lá, de boca aberta, roncando. Um absurdo, isso...”

A Ludy, pegando a deixa, deu prosseguimento

-“O André também. Mas só quando está bêbado.”

Começava ali uma reunião do M.A. (Muiés Anônimas), o grupo de esposas desiludidas que se reúne para chorar as pitangas e falar mal dos maridos. E há toda uma satisfação implícita aos depoimentos, que cresce à medida que a inaptidão de seus cônjuges vai sendo revelada.

-“Mas o Sandro dorme muito de barriga pra cima?”

Deu continuidade a Ludy.

-“Dorme. Dorme sim.”

Colaborou a Shi.

-“É, eu durmo.”

Respondi, deitado no chão que nem um indigente, numa vã tentativa de me iludir e achar que participava da conversa.

-“Ah, então é isso. Essa posição facilita o ronco. O André também dorme muito assim Aí, às vezes, quando começa a roncar muito, eu viro ele. E você não imagina como é ruim virar uma pessoa de 90kg...”

-“Virar, é? Tipo, de lado? Boa idéia...”

Riu sadicamente a Shi.

A conversa continuou, mas eu desisti de acompanhar/me pronunciar. Estava ocupado dormindo de boca aberta. Ainda bem que estava escuro e elas não viram.

Puxa vida. Que tristeza saber que a estima outrora dispensada vai descendo a ladeira à medida que o tempo passa. Mas o meu consolo é que houve um tempo em que a Shi saía por aí contando a todos da minha performance sexual olímpica, bem como enaltecendo meu charme e minha beleza viril e sofisticada (mentira, quem falava essas coisas era eu mesmo).

Os vinhos melhoram com o passar dos anos. Os namorados/maridos avinagram.

7 de junho de 2011

Estava Escrito. Na Certidão.

Outro dia cogitei bastante baixar ilegalmente alguma música do Michel Teló e escutá-la até sentir a vida se esvaindo de mim (coisa de 2 minutos).

Estava deprimido a ponto de cogitar me matar de forma sertanejo-universitário-destrutiva. Um horror. E sabe de quem é a culpa? Do Cartório.

Tudo começou recentemente, quando li/assisti (não lembro) uma reportagem que descrevia uma tendência curiosa: a relação entre profissões e os nomes/sobrenomes dos profissionais que as exercem.

A matéria mostrava que cada vez mais indivíduos optavam por seguir carreiras condizentes com seus nomes, chegando ao cúmulo de nego cursar determinada faculdade apenas por conta de sua graça (viroses sociais são ótimas metas de vida, afinal).

Mas sabe que, parando pra pensar, tem uma beiradinha de sentido? O nome certo pode atribuir profissionalismo, credibilidade, ou, no mínimo, simpatia.

Vejamos um Juiz nascido na família “Justo”. Seria um exemplo de imparcialidade desde o nascimento – efeito reverso em políticos. E um Geólogo com o sobrenome “Rocha”? Nada mais promissor. Assim como um Engenheiro Civil chamado “Pontes”. Ou uma Farmacêutica chamada “Remédios” (com sua amiga, a Médica “Socorro”). “Flores” também seria excelente para uma Botânica. E por aí vai.

Tá. Mas isso no mundo ideal e mágico onde vivem todas as outras pessoas que não são o Sandro. Comigo, como diz um colega,

-“O bagúio é loco, véio...”.

De forma que, pela lógica acima descrita, eu, Sandro Henrique Figueiredo Ribeiro, tava é fodido.

Pelo “Figueiredo”, eu poderia ser agricultor. Ou, mais especificamente, plantador de figo.

(pausa impactante e reflexiva)

PORRA, EU NEM GOSTO DE FIGO! E você conhece algum plantador de figo famoso? Já viu plantador de figo na Ilha de Caras? Assistiu algum filme vencedor de Oscar que narra a emocionante trajetória de um homem obstinado e sua plantação de figo? Claro que não. Ninguém gosta de figo, e quem compra provavelmente queria levar kiwi e pegou a fruta errada.

Agora, no caso do Ribeiro, o horizonte de opções se amplia: posso virar pescador, líder social de alguma população ribeirinha lá do cu de lugar nenhum ou ser um daqueles caras que medem a altura dos rios com uma régua gigante e dizem

-“Ih...”

Quando rolam aquelas enchentes caralhosas. É. Mamãe ficaria orgulhosa.

O Paulo Coelho tem razão: já estava escrito. Então, o jeito é dar uma fugidinha dessa vida miserável.