-“Véi...”
Disse o André. As introduções dele sempre contam com o pronome de tratamento acima (para maiores informações sobre as introduções do André, favor consultar a Ludy).
-“Eu trampava numa firma de publicidade lá em (não lembro). Mas não agüentei. Tive que sair.”
-“Ué, por que?”
Perguntou o Sandro, um véi amigo do André.
-“Porque, véi... É muito foda trampar em empresa. Tipo, tem sempre várias picas vindo na sua direção, o dia todo. E você tem que tirar a sua bunda da reta e por a de outra pessoa no lugar, por mais escroto que seja. Porque é isso o que todos os outros caras que trabalham com você vão fazer, tá ligado? É um ciclo! Não dá pra evitar.”
Concluiu/desabafou o homem.
Fiz que sim com a cabeça e confirmei que a ilustração escatológica do amigo não poderia ser mais elucidativa. Ambientes de trabalho têm muito a ver com violação anal, já que salvaguardar o próprio rabo é um rito diário de sobrevivência empresarial. O problema reside em empurrar o pepino pra outra pessoa.
Firmas, escritórios, companhias e afins são muito similares a escolas e presídios, no sentido de suscitar à competição, climatizando o ambiente com aquela agressividade velada que só os barris de pólvora têm. Afinal, em todo lugar onde há gente coexistindo contra a própria vontade, rola muita “fiadaputage” mesmo, como já dizia um filosófico colega. E o atalho encontrado por muitos profissionais pra subir na hierarquia corporativa
Como afirmou Darwin e desmentiu a Inquisição, tudo tem uma origem. Com a distribuição da culpa não poderia ser diferente. Afinal, quando você é criança, um singelo
-“Pai, não fui eu quem quebrou o para-brisa do seu carro com uma lajota não, tá? Quando eu vi, já estava assim!”
Já serve pra livrar sua cara. Na vida adulta, entretanto, a argumentação necessita ser mais detalhada, pra angariar um mínimo de credibilidade. E é aí que entra delegar a culpa ao próximo. Realize:
-“Olha, Dr. Egberto, eu realmente não sei de coisa alguma a respeito do desvio de 50 mil das contas da empreiteira. Mas tenho certeza de que o Erlani, que é o responsável pelo setor de finanças, pode explicar melhor para o senhor...”
Tá vendo como soa muito mais crível? E tudo por conta de um pequeno adendo à desculpa original: o culpado. Um
- “Não fui eu...”
é amador. Agora um
-“Não fui eu, foi ele!”
é profissionalismo in natura.
Não há pica que seja indivisível, vamos ser francos. Distribuir fragmentos de piroca profissional bundas subordinadas afora – adentro, aliás – é natural. Seja por necessidade, ciúmes, vaidade, engano ou esporte. Ou por puro sadismo mesmo. Tem muito chefe que curte assistir empregado levando no rabo. Tipo um vouyerismo corporativo, pro cara lembrar enquanto estiver tomando banho à noite. Doentio e injusto.
Eu penso no que disse o Bem Stone, certa vez, quando...
(pausa impactante)
O que, ‘cê não sabe quem é o Bem Stone? O Bem Stone era um promotor público de Nova York, interpretado pelo Michael Moriarty, nos áureos e viscerais primórdios do Law and Order, antes das vítimas especiais e de todos aqueles criminosos com transtorno obsessivo compulsivo, semana após semana. Num dos últimos episódios da 4ª temporada (se não me engano), ele conversa com a advogada “rival” num caso em questão. E diz algo como
-“Eu queria que uma vez, só uma vez, alguém dissesse no tribunal “Sim, fui eu. Eu cometi esse crime...”.”
Pois é. O Sandro também queria que, uma vezinha só, nego assumisse as cacas que faz. Quem sabe, caso esse dia venha a acontecer, eu mesmo também não assuma as minhas...








